FOTO: LUCAS UEBEL/GREMIO FBPA

Direção do Grêmio “Não tem coragem” de demitir Luis Castro, por que?

O torcedor gremista já perdeu a paciência. O time não apresenta evolução, os resultados preocupam e a sensação é de que ninguém no departamento de futebol tem coragem de tomar uma decisão. Luís Castro continua no cargo enquanto Odorico Roman, Paulo Pelaipe e os demais responsáveis pelo futebol repetem discursos de confiança que já não convencem boa parte da arquibancada.

É verdade que trocar de treinador a cada sequência ruim não resolve todos os problemas. Também é verdade que o elenco possui limitações e que o Grêmio atravessa dificuldades financeiras. Mas existe uma diferença enorme entre proteger um trabalho promissor e insistir em algo que não entrega respostas. Neste momento, a impressão é de que a direção está mais preocupada em defender sua própria escolha do que em avaliar honestamente o que acontece dentro de campo.

Paulo Pelaipe, Luis Castro e Odorico Foto: Angelo Pieretti/Grêmio
Paulo Pelaipe, Luis Castro e Odorico Foto: Angelo Pieretti/Grêmio

Por que a direção do Grêmio não demite Luís Castro?

Porque mandar o treinador embora custaria muito caro e representaria admitir o fracasso da principal aposta esportiva da gestão. Luís Castro assinou por duas temporadas e tem vínculo com o clube até dezembro de 2027. Ele ainda chegou acompanhado por seis profissionais de sua comissão técnica, formando uma estrutura considerada cara para a realidade financeira gremista.

Informações divulgadas pela imprensa gaúcha apontam que o custo mensal da comissão estaria próximo de R$ 1,8 milhão. Também há relatos de que o contrato não teria uma multa rescisória tradicional, mas obrigaria o clube a pagar os vencimentos restantes em caso de demissão antecipada. Como o documento não é público, não é possível cravar o valor exato, mas algumas projeções colocam uma eventual saída na casa dos R$ 30 milhões.

Isso ajuda a explicar a falta de coragem. Para trocar o treinador, o Grêmio teria de negociar uma rescisão milionária, contratar outro comandante e passar a sustentar uma nova comissão técnica. Em um clube que já fala abertamente sobre dificuldades para investir e manter os compromissos em dia, seria uma conta pesada demais.

O Grêmio virou refém do contrato que decidiu assinar?

Na prática, o clube parece ter reduzido drasticamente sua própria liberdade para tomar uma decisão esportiva. Se a direção entende que demitir é financeiramente inviável, então precisa explicar por que aceitou um vínculo tão longo e aparentemente tão protegido para o treinador.

O torcedor não participou da negociação. Não foi a arquibancada que ofereceu dois anos de contrato, aprovou os valores ou prometeu estabilidade quase absoluta. Quem criou essa situação foram os dirigentes. Agora, o mesmo contrato utilizado para convencer Luís Castro a aceitar o projeto parece ter se transformado em uma espécie de escudo contra qualquer possibilidade de demissão.

Continuidade é importante no futebol brasileiro, mas não pode ser confundida com teimosia. Um contrato longo deveria proteger um trabalho em desenvolvimento, não impedir que o clube reaja quando o desempenho está muito abaixo do esperado. Caso contrário, basta qualquer treinador conseguir um vínculo milionário para ficar praticamente imune aos resultados.

Luís Castro. Foto: Pedro H. Tesch

Odorico Roman e Paulo Pelaipe estão protegendo quem?

A permanência de Luís Castro também envolve a preservação política de quem apostou no treinador. O português não foi uma contratação comum. Ele chegou como símbolo de um projeto, recebeu uma comissão numerosa e foi apresentado como o nome capaz de modernizar e reorganizar o futebol gremista.

Demitir Luís Castro seria admitir que a grande escolha da gestão de Odorico Roman fracassou rapidamente. Seria reconhecer que o planejamento começou errado e que o clube assumiu uma obrigação financeira difícil de desfazer. Por isso, a sensação deixada pela direção é de que todos estão tentando ganhar tempo para não reconhecer o tamanho do erro.

Paulo Pelaipe já declarou publicamente que trocar o treinador não seria a solução. O executivo argumenta que não adianta contratar outro profissional para demiti-lo três ou quatro meses depois e chegou a lembrar que há clubes devendo milhões a técnicos dispensados. O raciocínio possui lógica financeira, mas não responde à principal pergunta da torcida: o que o Grêmio está vendo no trabalho de Luís Castro para acreditar que haverá uma transformação?

Até quando o contrato vai valer mais do que o futebol apresentado?

O dinheiro explica a permanência, mas não pode servir como desculpa eterna. Se Luís Castro realmente continua porque sua demissão custaria uma fortuna, a direção precisa ter coragem para admitir isso. O torcedor pode até não concordar, mas merece conhecer a situação real.

O que não dá é continuar vendendo apenas a ideia de convicção. Convicção precisa estar sustentada por desempenho, organização, evolução e resultados. Quando nada disso aparece, a palavra começa a soar como uma forma elegante de esconder medo, prejuízo e falta de planejamento.

Luís Castro tem responsabilidade pelo que apresenta. Pelaipe possui responsabilidade por bancar sua continuidade. Odorico tem responsabilidade por ter aprovado o projeto e o contrato. Não existe inocente nessa história. Se o treinador permanecer e recuperar o time, todos poderão reivindicar os méritos. Mas, se o Grêmio continuar afundando por medo de pagar uma rescisão, a conta esportiva poderá ser muito maior do que qualquer valor previsto no papel.

O torcedor gremista está indignado porque não enxerga reação. Não pede uma demissão por capricho, mas uma resposta diante de um trabalho que não convence. A direção precisa escolher: ou mostra claramente por que Luís Castro ainda merece confiança, ou assume que não tem coragem — ou dinheiro — para corrigir a própria escolha.

FOTO: ANGELO PIERETTI/GRÊMIO FBPA